Sonhos adiados
Todos achamos que compreendemos o que é viver com uma deficiência ou uma incapacidade.
Mas compreenderemos mesmo?
Não! Simplesmente nunca saberemos a não ser que passemos pela situação em concreto, até que não conheçamos na íntegra os sentimentos que se nutrem ou o modo como a sociedade nos encara.
São por vezes os que mais perto se encontram que mais magoam. Talvez por acharem que nos conhecem de fora para dentro quando apenas conhecem a imagem que nós próprios lhe damos a conhecer.
O sonho da maioria dos casais é terem filhos, mas por vezes esse "curso natural da vida" fica abruptamente interrompido com o som de uma qualquer voz de um qualquer médico.
Somos vistos como disfuncionais, como seres incompletos, como coisas avariadas.
Deixamos para trás as típicas respostas "estamos a tratar disso" quando nos interrogam uma e outra e milhentas vezes "para quando os filhos?", para apenas podermos responder com o sorriso mais amarelo que temos, aquele mesmo que esconde as lágrimas do coração, uma qualquer resposta absurda.
Escondemo-nos mais uma vez para não verem que as lágrimas do coração nos sufocam, que não nos deixam respirar. Sabemos que por agora escapámos, mas logo, amanhã ou para a semana voltam sempre à mesma interrogação "para quando os filhos?".
Escondemo-nos para que não vejam o nosso olhar de tristeza quando vemos uma barriga, escondemo-nos para que não sintam como dói (e como dói...) quando vemos as crianças dos outros, os seus sorrisos, as suas gargalhadas, até as suas birras nos doem.
Escondemo-nos para que não vejam o ódio nos nossos olhos quando uma criança é maltratada ou abandonada. Quando sentimos que é tão fácil para os outros terem filhos para depois as magoar.
Escondemo-nos tanto que às vezes até de nós mesmo nos escondemos. Fechamo-nos, trabalhamos até mais não, fazemos uma vida de rotina extenuante até acharmos (e acharem) que somos felizes assim, que não temos espaço, nem tempo nem amor para dar.
Escondemo-nos da vida porque a vida se escondeu de nós e nos arrancou uma parte tão importante e tão simples para todos os outros.
Os anos passam e sentimos que há muitos somos incompletos, que a dor aumenta ao ritmo dos dias que passamos, só um e o outro. Ao ritmos das gravidezes das outras, ostentadas com orgulho, ao ritmo das crianças que crescem à nossa volta, mas não ainda ao ritmo do nosso sonho, ainda adiado, ainda inatingível, perdido numa qualquer posição de uma base de dados que teima em não nos "escolher."



